Amor de Passageiro
Hoje a hora do conto vem trazer mais um texto assinado pela Nat Galvão.
O que dizer do texto? A mais bela descrição sobre um amor passageiro, ou melhor, de passageiro.
Sempre tentei fugir de amores fáceis e repentinos. Achava que do mesmo modo como eles vêm, também se vão, tão rápidos quanto a luz. Porém eu não consegui fugir daqueles olhos castanhos e de sua barba cor de bronze. Pareciam-me tão certos e divertidos que me obriguei a lhe enxergar com olhos de amante apaixonada, ainda que eu tivesse que me satisfazer com o pouco tempo que eu tinha para olhá-lo, do meu ponto até o seu e eram exatos três minutos.
Não sei se ele me via como eu lhe via, se enxergava em mim as belezas que eu achava em seu rosto, mas isto pouco me importava. Me deleitava em sua serenidade e calmaria, enquanto em mim, eu carregava uma berrante bagunça. Era sempre tão seguro, ameno, distraído com o seu próprio mundo, absorto em suas músicas.
Mas aquele rapaz me hipnotizava. Exalava um perfume artificial tão gostoso que eu aceitaria de bom grado se fosse o teu próprio cheiro, provinha de uma segurança masculina que me domava em seus loucos jeitos. Eu carregava a falsa esperança de que talvez, em algum momento, poderíamos nos falar, mesmo que apenas um cumprimento, um curto oi ou até mesmo um rápido sorriso, mas bem sei que homens como ele, já possuem a quem se deliciar em prazeres ao final da noite.
Acabei me apaixonando por suas mãos grandes que impunham certeza, de seus pequenos olhos castanhos que cintilavam sabedoria, de sua boca que me dizia ser capaz de distribuir beijos deliciosos e de sua barba que me causava arrepios apenas em imaginação. Ele descia dois pontos após do que eu subia, mas esse pequeno espaço de tempo parecia-me suficientemente grande para nos inventarmos maravilhosas histórias. Mal ele sabe que lhe criei um amor platônico, mal sabe ele que já desejei ser aquela que vestiria uma de suas camisetas para dormir.
Vejo-o todos os dias no meu amor de ônibus e nas minhas poucas ilusões diárias, mas desejo-o com fervoroso esplendor, que até me sinto ruborizada. Passei a carregar em mim este amor de passageiro.










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